Fazendo uma ponte com o depoimento feito pela Aninha no post anterior, senti vontade de discorrer sobre a aquisição da linguagem oral. Tal tema inclui diversos fatores, mas tentarei fazer um breve resumo.
Antes do aparecimento da fala, a criança se comunica com o ambiente através da linguagem corporal, descrita como diálogo tônico ou motricidade emocional. Ela utiliza o corpo como uma ferramenta operacional e relacional, seja qual for o nível evolutivo ou o domínio linguístico em que se encontre. Do nascimento até cerca do primeiro mês de vida, o som mais comum produzido por um bebê é o choro, embora existam outros sons de agitação e satisfação. A partir do primeiro mês de vida, este é capaz de discriminar entre sons da fala como pa e ba. Os bebês com essa idade parecem começar a brincar com tais sons. Comumente repetindo o mesmo som por horas, este novo padrão de som é chamado de balbucio, que é considerado a parte mais importante da preparação da linguagem.
Assim, a primeira forma de comunicação com o meio externo são as vocalizações, uma mistura de sons, muitas vezes indescritíveis, emitidos por prazer, sons espontâneos e reflexos fisiológicos. Logo, com a ajuda dos pais, a criança começa a imitar e a identificar sons específicos que mais tarde se tornarão sílabas e palavras.

A criança lentamente passa a compreender melhor o mundo à sua volta e a aprender que, através da fala, pode se comunicar com os outros e, assim, começa a produzir e a ecoar o que as outras pessoas falam. Com o surgimento da fala, por mais primitivo que seja, a própria criança vai estruturando o pensamento e criando associações de acordo com o que vive e percebe. Por mais que a criança possua “pouco” repertório em relação ao seu vocabulário linguístico, ela já possui uma compreensão muito maior à sua volta, mesmo não sendo capaz de reproduzir verbalmente o que entende e pensa – são chamados de associações e insights.
As primeiras palavras costumam ocorrer por volta dos 12 ou 13 meses de idade. A partir daí pode-se perceber uma série de mudanças: no início com gestos significativos, a mudança do balbucio para sons de linguagem distintos, jogos gestuais de imitação e o início da compreensão de palavras individuais. É como se a criança agora compreendesse alguma coisa sobre o processo de comunicação e tivesse a intenção de se comunicar com o adulto.
Uma vez atingido o marco da primeira palavra, as crianças costumam avançar até atingir um vocabulário de aproximadamente 30 palavras. Essas primeiras palavras são usadas para nomear coisas ou pessoas: bola, carro, leite, cachorro, ele ou aquilo. Palavras como verbos tendem a desenvolver-se mais tarde. Elas vão adicionando palavras lentamente durante alguns meses, e, posteriormente, de maneira acelerada. A maioria possui um vocabulário de cerca de 50 palavras por volta dos 18 meses. Por volta dos 3 anos, a criança já adquiriu todos os instrumentos necessários para formar frases e conversar.
No início é até bonitinho e engraçado falar “errado”; entretanto, é importante que os pais não só estimulem a criança a falar, como também a orientem a falar de maneira correta desde o início da vida, porque a ausência de estímulos à musculatura oral pode acarretar problemas posteriores. O distúrbio na fala, caso não seja tratado, pode inclusive afetar, mais tarde, a alfabetização da criança. Portanto, o processo de aquisição da linguagem por parte da criança está totalmente ligado à educação exercida pelos pais e pelo próprio estímulo e presença deles.

Na linguagem a criança tem acesso, antes mesmo de aprender a falar, a valores, crenças e regras, adquirindo os conhecimentos de sua cultura. À medida que a criança se desenvolve, seu sistema sensorial – incluindo a visão e audição – se torna mais refinado e ela alcança um nível linguístico e cognitivo mais elevado, enquanto seu campo de socialização se estende, principalmente quando ela entra para a escola e tem maior oportunidade de interagir com outras crianças.
Ao mesmo tempo em que a linguagem é um fator importante para o desenvolvimento mental da criança, exercendo uma função organizadora e planejadora de seu pensamento, ela tem também uma função social e comunicativa. Através da linguagem a criança entra em contato com o conhecimento humano e adquire conceitos sobre os elementos que a rodeia, apropriando-se da experiência acumulada pelo gênero humano no curso da história social.