Por que as crianças pequenas mordem umas às outras? Expressão de agressividade? Estresse? O quanto isso é normal?
A entrada na escola traz muitas mudanças na vida de uma criança, pois é o primeiro ambiente fora da esfera familiar que exige novas regras, valores e rotina. Por ser considerado um período de adaptação, é muito comum as crianças apresentarem uma série de sintomas, tais como choro, birra, ansiedade, conflitos, agressividade e as famosas MORDIDAS.
As mordidas costumam dar muita preocupação aos pais, pois ninguém gosta de receber seu filho cheio de marcas e muito menos recadinhos de mau comportamento.
Para entendermos as mordidas, precisamos lembrar da primeira etapa do desenvolvimento infantil: crianças pequenas geralmente adoram colocar objetos na boca, chupar, produzir sons, morder e até mesmo comer tudo o que encontram pela frente. Até os 3 anos de idade, a fase oral faz parte do seu mundo de explorações – a boca é a via do conhecimento. Para elas, tudo é objeto de interesse e alvo de curiosidade. Mordendo o outro, a criança experimenta e investiga elementos físicos como textura (duro? mole? quebra?), consistência, gosto, cheiro e também proporciona alívio para suas necessidades orais e interações sociais (quais efeitos que esta ação provoca no meu meio?). Nessa idade ela ainda não tem uma percepção global de si, e muito menos compreende o quanto seus atos repercutem externamente – dificuldade de se colocar no lugar do outro e noção do que é dor.
Quando essa primeira etapa de exploração é finalizada, algumas crianças podem persistir nas mordidas, seja para confirmar suas descobertas, para “testar” o ambiente ou para se defender. Nesta fase, a mordida é vista como algo natural, mas, quando prolongada, pode ser considerada um ato agressivo. É claro que esse comportamento deve ser desestimulado! Com a estruturação da linguagem, a criança já pode encontrar estratégias mais refinadas para solucionar seus conflitos.

A agressividade é necessária para lutar pelos próprios direitos, indignar-se com as injustiças, ter persistência para batalhar por metas e flexibilidade para continuar procurando saídas diante de grandes frustrações. Entretanto, o impulso agressivo quando não utilizado de maneira assertiva e construtiva, facilmente se transforma em ódio e violência. A agressividade é inata e necessária, mas a violência é aprendida no contexto social, caso ela seja estimulada e imitada na resolução de problemas.
Apesar de a mordida fazer parte do desenvolvimento natural da criança, muitas vezes condutas agressivas podem estar relacionadas a problemas emocionais: tristeza, sentimentos de rejeição, necessidade de diferenciação para fortalecer a independência, manobra de dominação, medo de ser dominado, baixa tolerância a frustração, ansiedade, chamar a atenção, entre outros. Quando isso acontece, a família e a escola precisam acompanhar de perto e com atenção para descobrir as possíveis causas, principalmente quando as mordidas continuam ocorrendo.
Cabe à família e, principalmente à escola, ajudar tanto a criança agressora quanto a agredida, identificar as razões de tais atos e evitar a instalação da agressividade no grupo. A boa notícia é que esses comportamentos são passageiros. Se bem conduzidos, as crianças aprenderão a superar essa fase e construirão relações sociais saudáveis. Trocar experiências com a professora, psicopedagoga, psicólogo, pediatra e com outros pais poderá trazer soluções e estratégias para amenizar a agressividade.
Pais e educadores devem se empenhar para que esse comportamento seja controlado, incentivando a criança a utilizar sempre a linguagem verbal diante de situações conflituosas e que exigem negociação por parte da criança. Por exemplo, pedir emprestado um brinquedo e o coleguinha não querer dar, pode gerar uma situação de conflito, e aquele que não foi beneficiado poderá bater, morder ou se isolar. Se a criança escolher “bater ou morder”, mostre a ela que o amigo ficou triste e machucado e que ele poderia negociar com o amiguinho: dividir o tempo com o brinquedo ou brincarem juntos.
Imaginar-se no lugar do outro é um excelente exercício para despertar a percepção das consequências das ações que se pratica.
