“Ei, tira a mão daí!” – Conversando sobre a masturbação infantil

“Ei, tira a mão daí!” – Conversando sobre a masturbação infantil

Falar sobre sexualidade é sempre complexo. Complexo pelo motivo de envolver uma série de fatores sociais, políticos, psicológicos, físicos e, principalmente, culturais. Qual pai que, ao ver seu filho se “tocando”, tem como primeiro impulso uma reação de susto e/ou até mesmo de desaprovação? Parece que o tema está mais relacionado com a maneira com que os adultos lidam com sua própria sexualidade e com a inabilidade de conversar com os filhos sobre o assunto. Que tal olharmos a masturbação por um outro ângulo? Topam fazer este exercício? Vamos lá…

A masturbação é uma estimulação dos genitais feita pela pessoa ou por outra, pelas mãos ou por algum outro objeto, visando o prazer, mesmo que não ocorra o orgasmo. No caso das crianças, ainda que não inclua a presença de fantasias eróticas, significa prazer. As meninas costumam usar travesseiros e panos entre as pernas, movimentando-se (para frente e para trás) nas pernas dos adultos ou braços de sofás ou se estimulam com os dedos das mãos ou com o jato de água do chuveirinho. Os meninos, por sua vez, estimulam-se em contato com alguma superfície como o colchão ou, o que é mais frequente, com as próprias mãos.

Tal estimulação pode ser observada a partir dos 2-3 anos de idade, período em que a criança está centrada na descoberta sensorial do seu corpo e na experimentação de sensações concretas. Assim como a criança demonstra curiosidade nos elementos externos (por exemplo: colocar objetos do chão na boca), ela começará a despertar curiosidade em relação ao seu próprio corpo e no do outro também (diferenças de gêneros: meninas tem “pepeca” vs. meninos tem “piu-piu”). Assim, a masturbação faz parte do desenvolvimento do ser humano como um todo, como um aspecto natural de consciência corporal e sensorial; o que vai definir se é normal ou não será a quantidade e a maneira como os pais lidam/conversam sobre isto.

Na maioria dos casos, os pais são a peça-chave da questão: ainda hoje persiste entre nós a herança histórica do antigo preconceito, baseada em ideias de que a masturbação é considerada uma prática pecaminosa, danosa ou que despertará desejos ou práticas precoces. Talvez, por isso, seja tão difícil para um adulto encarar a masturbação entre crianças como manifestações naturais do desenvolvimento. Nossos olhares são “genitalizados”, isto é, olhamos as manifestações eróticas interpretando-as como sexo, pornografia, erotismo, etc. Mas essas ideias correspondem à imagem da sexualidade própria de um grande número de adultos na nossa cultura. É importante dizer novamente que as crianças vivem a fase da experimentação corporal, baseada em uma curiosidade NATURAL, para descobrir novas sensações. Elas não vivem tais experiências do mesmo modo e com as mesmas fantasias que os adultos.

Esse mesmo olhar do adulto irá permear também as abordagens para com meninos e meninas: a família costuma enxergar a masturbação dos meninos como uma experiência de maturidade ou de “garanhão”. Nas garotas o toque ao próprio corpo é visto negativamente, pois nossa educação sexual ainda está focada na função de dar prazer ao homem e não no próprio prazer feminino. É negado ao feminino sentir prazer consigo mesma; é “impuro”.

Todas as crianças têm no seu DNA corporal e psicológico a sexualidade e que será mediada e influenciada pela cultura, pela educação que a criança recebe em casa, pela escola e contato com os meios de comunicação (filmes, desenhos, vídeos, etc.). Nesses vários ambientes elas recebem informações e regras, percebem atitudes e sofrem punições ou são elogiadas por sua conduta, seja ela adequada ou não aos padrões sociais. Na escola também a criança irá expressar sua sexualidade e aprender com o seu corpo e o do outro: a curiosidade em observar os outros na hora do banho, as conversas sexuais em grupos, o emprego de palavras supostamente obscenas, os bilhetes e desenhos sexuais são situações em que há aprendizagem, experimentação e o prazer da descoberta. As crianças são ativas erótico-afetivamente, o que é normal e saudável.

Então nós, como pais/educadores/cuidadores desses pequenos, o que fazer ou dizer a eles ao se deparar com a masturbação?

Recriminar, bater, dar bronca, reprimir, chamar a atenção de forma enérgica e gritar NÃO SÃO caminhos válidos para tratar a masturbação infantil, mesmo se o comportamento for insistente. A primeira coisa a se fazer é observar sem julgamentos e compreender qual a finalidade do toque: é uma imitação? Uma estimulação sensorial natural? Uma descoberta corporal? Um momento de intimidade? Um comportamento de auto se acariciar? Observe o que acontece antes e depois… em quais momentos a criança costuma fazer?

E se for em público?

A criança não entende que, moralmente, o comportamento em público não é bem aceito. Dentro de casa os pais precisam dizer que é algo para se fazer quando estiver sozinho, no banheiro ou no quarto; orientar em relação a higiene (mãos sujas ou objetos podem machucar/ferir/assar); explicar para a criança que seu corpo diz respeito à intimidade. Se a criança insiste o adulto precisa repetir o discurso, assim como as demais repetições diárias que envolvem educação e regras.

Nos casos de a masturbação acontecer em público, os pais devem de maneira discreta DISTRAIR a criança ou chamar ela em particular e conversar. O que o adulto faz é interromper a ação e propor outra atividade sem dizer absolutamente nada a princípio. A abordagem precisa ser intimista para não transmitir uma mensagem contraditória ou até mesmo punitiva. Uma dica é o próprio adulto servir como um espelho para ajudar a criança a compreender a orientação: “Filho(a), você vê eu ou o papai fazendo isso na frente das pessoas?”

Há crianças que mostram comportamentos sexuais impróprios para a idade. Estes casos, em geral, são fruto da imitação e ocorrem, por exemplo, após a exposição da criança a cenas de sexo entre adultos (entre os pais ou mesmo de filmes pornográficos). Uma criança que usa de palavras incomuns para a sua idade ou tende a simular uma relação sexual com colegas, em geral, está dizendo que vive num ambiente em que recebe uma estimulação erótica inadequada para a sua idade. Ainda que comportamentos inadequados aconteçam, a criança que os pratica não deve ser censurada ou punida. Ela MERECE receber orientação e esclarecimento, maior atenção e respeito.

O que os meninos e as meninas precisam entender é que o pênis e a vagina são partes do corpo para serem lidados quando eles estiverem sozinhos. Esse recado ajuda as crianças a irem percebendo que o corpo é exclusividade delas. Desta forma os pais estão trabalhando, inclusive, na prevenção futura e na maneira de como elas lidarão com seu corpo.

sexualidade

As crianças não se excitam, a experiência é exclusivamente sensorial; o problema está no olhar do adulto para a sexualidade infantil. Geralmente, o adulto erotiza e enxerga coisa que não existe.

O que acontece se os pais chamam à atenção, proíbem ou punem?

No primeiro impulso, os pais tendem verbalizar discursos morais, punitivos e de ameaça sem perceber: “Seu pintinho vai cair se você continuar fazendo isso”; “Você vai ficar doente se não tirar a mão daí”. Ao ouvir isso, a criança aprende que seu corpo (genitais) é um assunto proibido e que não é discutido. Os pais sem perceber estabelecem um tabu e distanciamento para com os filhos, reforçando o surgimento de desejos e fantasias sexuais precoces ou até mesmo ansiogênicas. E aí o feitiço vira contra o feiticeiro: a fixação causada pela proibição da masturbação aumenta a vontade de se masturbar, associada ao sentimento de proibição e culpa. Essas atitudes ocorrem devido ao tipo de educação — influência cultural — que esses adultos receberam e de suas experiências pessoais, e isso pode repercutir na maneira como as crianças possam vir a praticar sua sexualidade na vida adulta. Em vez de estabelecer uma aliança com os filhos, estabelece-se distanciamento e segredos.

Conversar sobre sexualidade, de onde vem os bebês, masturbação, sexo, entre outros temas faz parte da educação de toda criança e cabe aos pais orientá-los e ajudá-los a compreender a si próprio e sua relação com o mundo. O diálogo deve ser estabelecido de acordo com cada idade, e os pais precisam estar preparados para estabelecer um discurso em que não haja julgamento, uso de valores pessoais e histórias de ficção. Manter o discurso da “cegonha” demonstra ainda o quanto os pais se sentem despreparados para lidar com suas próprias questões sexuais, incentivando as crianças a buscarem outras vias de pesquisa, que muitas vezes se tornam inadequadas ou precoces para a idade.

Converse com seu(s) filho(s) de maneira aberta e sincera, utilizando sempre um vocabulário de acordo com a idade. Em casos mais graves (excesso, exagero e comportamentos sexuais muito além da idade), procure ajuda médica e/ou psicológica.

Como vocês lidam com este assunto? Compartilhem com a gente!

Bio Lili